Nem mesmo um optimista

” Quando chega a hora de deitar a crise económica no divã, somos confrontados com três escolas de pensamento: a optimista (a tormenta vai dissipar-se já a partir de 2010); a pessimista (ainda vamos viver largos anos com a ponta da espada encostada à garganta) e a realista (ninguém pode prever, com rigor, a extensão da avalancha).

As respostas à crise variam, também, em função das tais doutrinas. Os optimistas apelam à serenidade e mandam-nos olhar para os países que vivem na eminência da bancarrota (uma espécie de relativização do caos à custa da desgraça alheia); os pessimistas exigem que nos tranquemos em casa, sem consumir futilidades, a pão e água,  e rezemos dois pais-nossos e três avé-marias, não em busca de um lugar no céu, mas em prol de um lugar no mercado de trabalho; já os realistas conselham-nos simplesmente a viver a vida, uma vida imprevisível, é certo, que já não depende só da decisão ou empenho de um qualquer ministro ou primeiro-ministro. Mas da malfadada conjuntura. E da sorte.

Circunstância que a alguns líderes até dará um certo jeito: a crise não tem rosto, não tem projecto político, não tem de concorrer a eleições. A crise só tem de cumprir o papel subjectivo que lhe foi destinado: ser uma entidade odiada que até pelos nossos defeitos congénitos podemos responsabilizar.

A verdade é que, por mais que nos esforcemos, não conseguimos apontar, com rigor, o dedo a um culpado, tal como não haverá certezas quanto ao antídoto para este veneno. Passe a extrapolação, uma doença que vem de fora, que começa a matar os que nos rodeiam, é sempre mais resistente do que uma maleita doméstica, cuja fonte somos capazes de identificar e estancar.

A União Europeia vive exactamente este paradigma: tem de responder a uma crise importada, tem de começar a espalhar os anti-corpos, mas anda entretida a escolher a vacina correcta e o melhor método de aplicação. Cimeira após cimeira, ficamos com a sensação de que os líderes europeus continuam a falar naquele “bruxelês” que é mestre em querer aparentar tudo, mas em concretizar nada. Num dia são as taxas de juro; noutro, os activos tóxicos; depois, a regulação bancária e mais recentemente a diabolização (apenas académica, por carecer de um quórum inter-estados que nenhum optimista arrisca antecipar) dos chamados paraísos fiscais. Os líderes europeus discutem muito, mas decidem pouco. São, pela mastigação dada às palavras, fiéis signatários da diplomacia do croquete.

Mas a Europa – retornam os que nem mesmo pelas evidências se deixam derrotar – continua a ter um trunfo chamado moeda única. Um trunfo que continua a valer muito, mas que começa já a ser questionado. Há dias, a Hayman Advisors LP (a empresa que ganhou 500 milhões de dólares a especular com a crise hipotecária nos EUA) avisou que a união monetária europeia corre risco de vida. E porquê? Basicamente, porque a Alemanha, o motor económico do progresso (?) europeu, pode ter de escolher entre a salvação da sua economia ou da economia da Áustria, da Irlanda ou da Espanha. Ou de Portugal.

No fundo, quea Europa, bloco solidário e harmonioso, pode voltar a erguer muros para ousar sobreviver. Uma especulação vale o que vale, mas imaginem lá o que seria de nós agora sem a moeda única. Não havia optimista que aguentasse.”

JN, Pedro de Carvalho, 06.03.2009

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